Gilberto Amendola - 20 de abril de 2016
(Foto: Thinkstock)
Bateram na minha porta às 6h da manhã. Achei que era da Polícia Federal. Que nada! Era um coração de terno e gravata.
De cara fechada, o Sr. Coração disse logo que estava ali para reclamar o que era dele por direito: o meu blog.
“Há quanto tempo você não cumpre com o seu contrato de escrever única e exclusivamente sobre a minha pessoa”?
De fato, o coração tem um ponto. Nos últimos meses, quase não toquei em seu nome.
Diria, isso sim, que o coração foi atropelado pela história e quedei-me sem inspiração – fugindo assim do tema central dessas pobres cronicazinhas.
“Como falar de você”, disse eu ao coração que já estava esparramado no sofá da sala, “no meio de tanta desdita, tanta coisa louca, tanta notícia escrota”.
Abri o jornal para me justificar. Apontei um retrato do Eduardo Cunha e falei “toma”.
“Quer que eu fale de amor como”?
E o coração, que bate do lado esquerdo do peito, pareceu-me cooptado pela oposição. Ele me disse “não”, “se vira”, “tem que ter amor mesmo com a sombra desse senhor”.
Mostrei lá outro retrato, daquele que todos conhecem como Bolsonaro. Por conta do impacto, o coração parou no ato. “Quer que eu tenha um enfarto”?
Ainda assim, aquele nobre coração chamou-me de canto e mandou a real: “Não importa, tem que falar de amor, tem que falar de mim, tem que falar mesmo com esse sujeito rondando, mesmo com esse sujeito assombrando… Sou uma questão de prioridade”.
O coração tomou um café e um conhaque.
Ameaçou-me – disse que meu cargo estaria à disposição se meu próximo texto não fosse uma ode ao coração.
Prometi tentar.
O desemprego agora seria uma faca no pescoço.
Despeço-me do amigo coração, acho que já fiz isso antes, mostro todo o meu respeito e prometo me esforçar.
Sozinho na sala, fecho o jornal e vou para frente do computador.
Preciso inventar qualquer amor e ganhar algum dinheiro.
Fonte: Yahoo! Vida e Estilo
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